ode a nancy spungen
a "nancy nauseante" que viveu tanto em tão pouco tempo
esse ano, eu fiquei obcecada por uma pessoa que até já existia pra mim, mas muito distante. uma figura que foi tão misteriosa quanto foi um livro aberto, nancy spungen era conhecida por toda a cena punk de nova iorque antes mesmo de seu último feito, o feito do qual mais se orgulhava: sua relação com o maior baixista da vez, sid vicious. enquanto a imprensa da época a dava apelidos pejorativos, quem a conheceu diz que ela era uma menina generosa. hoje em dia, muitos confessam gostar dela. mesmo assim, a menina de dezenove anos era problemática demais até para a cena punk.
por debaixo de toda a maquiagem, das roupas rasgadas, e da pose, tinha uma menina que só quis uma coisa a vida toda: ser amada; mas ela era difícil demais pra isso. se você ler o relato da mãe dela (no qual eu, pessoalmente, acredito apenas em parte), do livro and i don’t want to live this life, vai perceber que ela já nasceu em circunstâncias terríveis, enforcada pelo cordão umbilical. com menos de uma semana de vida, nancy, sofrendo de icterícia, precisou de transfusões de grande parte do seu sangue (80%, segundo deborah, sua mãe).
quando bebê, dizem que ela gritava, chorava e esperneava constantemente. quando criança, deborah disse que era tudo “do jeito da nancy”: ela não tinha medo nem respeito pelos pais, e não havia paz na casa até que ela conseguisse o que queria. um dos relatórios de terapeutas afirma que, apesar de reagir combativamente, ela temia perder o amor e proteção dos pais, que se achava inadequada e preferiria ser mais bonita e mais gentil, e que seus altos esforços acadêmicos eram uma forma de compensar sua inadequação. também foi dito que punições violentas eram comuns no ambiente familiar, o que instigava seu comportamento agressivo. tais punições deborah disse não saber de onde vinham, e aqui podemos escolher acreditar ou não. deborah também disse que nancy amava música, mais do que tudo.
quando adolescente, nancy foi mandada a um internato. se sentia excluída e atacada por tudo e todos, reclamava constantemente de ser odiada pelos seus amigos, pelos professores. dizia que todos estavam contra ela. conheceu a automutilação. conheceu um guitarrista. conheceu as drogas. e foi diagnosticada com esquizofrenia. o próprio internato, que não podia expulsá-la, decidiu obrigá-la a fazer o s.a.t. (uma espécie de vestibular da gringa), pra que parasse de dar trabalho por lá. de certa forma, ela não estava errada.
foi expulsa da faculdade, apesar de boas notas, por comportamento violento. segundo deborah, foi nessa hora que nancy percebeu que não conseguiria viver no mundo como outras pessoas, que ela realmente era doente (a sickie, em seus próprios termos). aos dezessete anos, disse que morreria antes dos vinte e um. em uma explosão de glória.
para nancy, música era tudo. diz a mãe que ela só pensava em duas coisas: música e droga. the harder the better. como uma última tentativa de se livrar do peso de cuidar da nancy, os pais decidiram mandá-la para nova iorque, para viver dentro da cena musical como ela tanto dizia que queria fazer. alugaram um apartamento, e lá ela pareceu florescer como nunca. escreveu artigos e críticas para jornais de rock. legs mcneil, fundador da revista punk e co-autor de mate-me por favor (com gillian mccain), disse, em entrevista para a revista new york, que nancy os recebia em seu apartamento e os deixava usar o chuveiro, que não tinham no punk dump, seu escritório. ela sabia tudo sobre todos os álbuns, ele disse sobre nancy. ela nos fazia ovos mexidos.
ela é muito boa, mãe, disse nancy sobre debbie, e bonita. ela é minha amiga. a debbie é minha amiga.
esse trecho do livro partiu meu coração, junto com muitas outras falas da nancy. fica claro o tempo todo que ela se achava indigna de qualquer forma de amor. se drogava para escapar das dores auto- e hetero-infligidas. marcas causadas pelo uso de heroína envolviam seus braços e preocupavam sua família, desde a adolescência. já em nova iorque, nancy fez tratamento com metadona algumas vezes, melhorando consideravelmente todas as vezes, mas sempre recaía. em seu aniversário de dezenove anos, em 1977, ela já estava livre das drogas, e em um avião para a inglaterra - onde conheceria sid vicious.
nancy estava genuinamente feliz - possivelmente a única vez na qual tenha estado feliz em sua vida toda, deborah escreveu. nancy encontrara alguém que a amava, e acreditava piamente que era isso que a salvaria. tentou esconder dos pais as violências que sofria de sid, uma relação conturbada e permeada por drogas. deborah uma vez perguntou se ela ainda usava heroína, ao que nancy respondeu: sim, mas vou voltar às metanfetaminas. o sid quer que eu volte. viu quão bom ele é pra mim?
uma menina (sim, menina) cuja vida fora, desde o começo, cheia de violência, aceitava e dependia de um homem que era violento. se alguém estiver surpreso, não me fale. não é meu lugar supor ou deduzir o que aconteceu na noite de doze de outubro de 1978 no hotel chelsea. escrevo esse texto porque sinto profundamente pelo tratamento que nancy recebeu a vida toda. nancy não era mais estragada que ninguém na cena, disse legs mcneil, ainda em entrevista pra new york, o joey ramone apontou uma faca pra sua mãe, todos nós éramos meio perturbados. ainda assim, nancy spungen sofreu escárnio da imprensa e do público, a ponto de transformarem sua trágica morte em espetáculo. me pergunto se ela teria recebido o mesmo tratamento se fosse um homem agindo como ela agiu a vida toda, e não preciso ir tão longe pra encontrar a resposta. é fácil odiá-la, e chamá-la de maluca, assim como é fácil odiar courtney love e joan jett, mulheres que romperam com as expectativas de gênero, agiram como homens agiam no punk, e foram ostracizadas por uma sociedade misógina.
finalizo com a verdadeira ode a nancy, um poema escrito por sid vicious:
nancy
you were my little baby girl
and i shared all your fears.
such joy to hold you in my arms
and kiss away your tears.
but now you’re gone there’s only pain.
and nothing i can do.
and i don’t want to live this life
if i can’t live for you
to my beautiful baby girl
our love will never die.




